Motivos para namorar um historiador

Ele tinha um grande talento para línguas. Avraham confirmou a data de nascimento do pai, em maio de E, embora o amigo Herbert Klein tivesse se enganado quanto ao fato mais importante de todos — seu ex-colega estava vivo —, ele estava certo no que dizia respeito à escola em que Leff havia estudado: a ótima Boston Latin, onde havia começado a aprender aquelas tantas línguas. A ordem das universidades por que ele passou também estava correta. E o que dizer sobre a religiosidade de Leff? Sem barba, sem chapéu, nada. Ele mudou assim que pôde.

Comentei o que me haviam dito — e o que eu havia lido — sobre as quotas informais impostas pelas melhores universidades americanas aos judeus, no passado. O mundo mudou.

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Conversamos mais um pouco, e ele falou das dificuldades que o pai tinha para se comunicar. Precisava fazer um grande esforço quando queria dizer alguma coisa. Eu quis saber se Avraham conhecia em detalhes as razões que haviam levado o seu pai a querer estudar o Brasil. Judith Leff, a mulher de Nathaniel, é três anos mais velha que ele.

Lilia Schwarcz

Tem 80 anos. Tentavam fugir do nazismo. É bastante religiosa, como o marido, mas talvez paradoxalmente uma mulher à frente do seu tempo. Nos anos 50, fez doutorado em biologia na Universidade de Paris. É especialista em fisiologia das plantas, e uma pessoa impressionantemente inteligente, culta e estoica.

Tinha a ver com o jeito dela, com a conversa. Nathaniel, me disse a senhora Leff, pelo telefone, nasceu em Nova York. Seu pai, Louis, trabalhava negociando ações na Bolsa. Em algum momento se mudaram para Boston. Nathaniel passava mais um ano na cidade, depois de ter concluído a faculdade em Harvard. Estavam numa mesa, conversando. Eu era bastante antiamericana naquela época. Perguntei pelas razões do antiamericanismo dela. A maioria de nós pensava assim, tinha esse tipo de sentimento. Era culto. Ainda é. E ele gostava tanto do livro quanto eu. Segundo Judith, os dois começaram a namorar imediatamente.

Ao final do ano de estudo, ele voltou para os Estados Unidos para fazer o mestrado na Universidade Columbia. E eu voltei a Paris, para escrever a minha tese. Ficaram noivos, em Paris.

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Ele retornou aos Estados Unidos. Seis meses depois estava de volta à Europa, acompanhado da família, para o casamento. Foi nesse período, entre e , que Nathaniel Leff se interessou definitivamente pelo Brasil. Seu orientador em Columbia, disse Judith, foi o economista Albert Hirschman, especialista em desenvolvimento econômico que naquela época vinha se dedicando a estudar a América Latina. Ainda assim, parece ter havido um momento decisivo, em que Leff afinal se dispôs a fazer um doutorado sobre a economia brasileira.

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Os registros da Universidade Columbia, no entanto, mostram que Nathaniel escreveu seu trabalho final sobre a economia da Argélia, talvez pela facilidade que tinha com o francês. Disse a Judith que iriam se mudar para o Brasil, onde faria pesquisa. Ele era fascinado por isso. No final de , dois anos depois de ela ter deixado a França, Judith e Nathaniel partiram para o Brasil.

Levavam com eles dois filhos, um de 14 meses, Avraham, e uma menina de apenas 3 semanas, Anne. Estavam no país quando veio o golpe de Essa foi a parte boa.

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Leff mantinha contato frequente com economistas brasileiros. O ex-ministro também se recorda do breve convívio com o americano. Ele arranhava o português. Tanto quanto Judith Leff se lembra, o marido nunca mais voltou ao Brasil depois desse breve período de pouco mais de um ano no país. O s primeiros sinais do mal de Parkinson apareceram quando Nathaniel Leff tinha 50 anos, em O diagnóstico, disse Judith, veio dois anos depois.

Ainda assim, continuou a dar aulas. Ele era valorizado e estimado pelos estudantes.

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Havia outros cursos pelos quais eles poderiam optar. Mas os alunos ficaram.

Resolveram lidar com o problema filmando as aulas. Depois distribuíam as fitas, para que pudessem rever as partes mais difíceis de entender. Por volta de , surgiu uma esperança. Havia um médico na Califórnia, contou a senhora Leff, que desenvolvera um método novo para tratar o mal de Parkinson. Os dois viajaram para a Califórnia, Leff foi operado, e deu tudo certo. Depois disso, os piores tremores nunca mais voltaram, é verdade. Mas Leff praticamente perdeu a voz. Quando afinal consegue dizer alguma coisa, o som que sai é baixo.

Fica muito difícil de entender. Curiosamente, os caminhos dos dois se cruzaram nos anos 60, quando ambos estavam começando a pesquisar a economia brasileira. Muito estranho. E que muitas vezes acabaram se mostrando corretas, como no caso da importância das ferrovias, confirmada pelos estudos e pela maior quantidade de dados de William Summerhill. A casa de dois andares dos Leff é branca, com as molduras das janelas e outros detalhes em verde, e um telhado cinza bastante inclinado. Uma rampa para cadeiras de rodas foi instalada sobre os poucos degraus que conduzem à entrada principal.

A senhora Leff, que acabara de abrir a porta, vestia-se com uma saia que cobria os joelhos, sapatos pretos e uma blusa roxa. Convidou-me a entrar. Passamos à sala ao lado, e nos sentamos, os três, diante de uma mesa de jantar coberta com uma toalha simples, tendo ao centro um jarro alto com cinco enormes girassóis. Falei sobre o Brasil, disse que admirava os trabalhos que ele havia escrito. O professor aposentado de Columbia sorriu, satisfeito.

Perguntei se ele havia voltado alguma vez ao país, depois de Leff demorava para responder. Judith interveio e reforçou a pergunta.


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O economista parecia fazer um grande esforço, murmurou algumas palavras, que eram incompreensíveis para mim. Ainda assim, arrisquei perguntar sobre as razões de ele ter se interessado pelo Brasil, nos anos Do discurso que se seguiu, consegui identificar algumas poucas frases e palavras. Olhei para a senhora Leff, que tampouco parecia compreender o que seu marido dizia. Meu marido tinha grande interesse em comparar o desenvolvimento do Brasil e dos Estados Unidos.


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  7. O que os pais dela faziam? E como ela havia sobrevivido à guerra? Que tipo de pintor? Judith se levantou e buscou uma foto que reproduzia um autorretrato feito por seu pai. Passara os primeiros anos da guerra num campo francês, menos severo que outros — dali, no entanto, os judeus eram mandados por trem para morrer na Alemanha ou na Polônia. Quando soube que seria transferido para Auschwitz, Arthur, o pai da senhora Leff, enviou uma carta à esposa.